O arrependimento das compras online na pandemia

Sem sair de casa, muitos resolveram o tédio comprando online, mas acabaram se arrependendo.

Nesse impulso, muita gente saiu comprando o que precisava – mas também o que era moda ou o que parecia que ia ajudar, mas, na verdade, só entulhou a casa.

Foi o que aconteceu com a empresária Bianca Pernambuco. “A gente estava sozinho em casa, ninguém estava vacinado ainda, então tinha aquele medo do coronavírus. Comprar online foi um conforto, a única novidade boa que a gente tinha”, lembra ela, que achou que era muito bom negócio comprar um aspirador robô. Pagou quase R$ 400 no aparelho, que acabou usando pouquíssimas vezes. Agora, o equipamento está empoeirado, guardado num canto da casa. “O apartamento é muito grande. Me decepcionei, porque ele não deu conta e acabou encostado. Agora quero vender”, diz Bianca.

Ela não é a única que passou por isso. Muita gente – que se viu sem a ajuda das faxineiras de uma hora para outra – comprou o aspirador robô, que acabou virando o queridinho da pandemia. “Para você ter uma ideia, vendemos 19 mil unidades em 2019. No primeiro ano da pandemia, saltamos para 150 mil. Este ano, foram mais 330 mil aspiradores robôs”, diz Giovanni Cardoso, co-fundador da Mondial Eletrodomésticos. O aparelho que anda pela casa sozinho recolhendo sujeiras do chão fez, sim, a alegria de muita gente. Mas teve quem comprou sem precisar e se arrependeu. Tanto é que no site OLX, especializado em anunciar vendas de pessoas físicas – principalmente itens de segunda mão, o número de anúncios de robô aspirador disparou. E não foram só anúncios de aspiradores robôs que aumentaram. Os de fritadeiras elétricas – as Air fryers, quase quadruplicaram.

Elas que também foram um grande objeto do desejo pandêmico (na Mondial, elas tiveram alta de vendas em unidades de 60%), acabaram virando um trambolho para muitos. Assim como as pipoqueiras (280% mais anúncios de venda), as máquinas de fazer pão (62%) e as bicicletas ergométricas, com salto de 802%.



No caso da personal trainer Karin Kraml Simi, de São Paulo, foi uma esteira que acabou de escanteio. “Sempre fui muito ativa. Na pandemia, eu comecei a engordar. Então, como não podia sair, achei que uma esteira seria uma boa. Mas ela faz muito barulho, a vizinha de baixo acabou reclamando. Hoje, ela está parada na casa da minha mãe”, diz. Outros artigos de ginástica em casa também fizeram sucesso na pandemia. Bianca, por exemplo, comprou bola de pilates, tapete de ioga, rolinho de fazer exercício, barra de apoio e bandas elásticas. Usou tudo isso? “Um pouco só. Agora tá tudo encostado.”

As roupas e os cremes para cuidado da pele – o famoso “skincare” – também serviram de válvula de escape na quarentena. “Ah, admito que tinha hora que eu supria minha carência de contato social fazendo compras, principalmente de roupas. Mas comprar blusa e calça na internet é difícil: umas ficam grandes, outras pequenas. Me arrependi de muita coisa”, conta Karin.

Como os creminhos para pele não precisam servir no manequim de ninguém, eles bombaram. Só no ano passado, as vendas de itens de cuidados com a pele aumentaram 21,9% em volume segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec). Julia Miranda, de Campinas, fez a festa com eles. Ela experimentou marcas novas, produtos novos. “Especialmente na Black Friday, quando esses cremes caros estavam um pouco menos”, diz ela. “Mas na hora de usar, não gostei, e eles acabaram parados na gaveta.”

Sendo assim, é claro que muito dinheiro acabou empatado nessas compras para suprir carências emocionais – e não necessidades verdadeiras. Uma esteira de exercício, por exemplo, custa, no caso das mais simples, mais de R$ 1 mil. Mas nada se compara a comprar um apartamento ou uma casa por impulso. Quem teve que ficar em casa e trabalhar da mesa da cozinha ficou doido para se mudar para um apartamento melhor, com espaço para home office e, quem sabe, até uma varanda.

Então, o setor bateu recordes em 2020. Foram comercializadas no ano 51.417 unidades residenciais novas na cidade de São Paulo – um número recorde, 4,5% maior que os resultados de 2019, ano em que as vendas totalizaram 49.224 unidades, segundo o Secovi, o sindicato da construção. Muitas construtoras adotaram a venda online de apartamentos, em que o comprador não precisava visitar o apartamento decorado no local. Na You,inc, por exemplo, as vendas online chegaram este ano a representar quase metade de tudo que a incorporadora comercializa.

Mas aí veio a realidade. O trabalho presencial voltou para muita gente, a inflação e os juros voltaram subir. Resultado? Compradores começaram a devolver o imóvel, pelo chamado distrato, a rescisão ou anulação do contrato de compra.

Segundo os dados mais atuais da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), houve aumento de 18% no número de distratos no primeiro trimestre de 2021 na comparação com o mesmo período em 2020 (5.751 contra 4.883). Até julho de 2021, os distratos representaram 13% do total de vendas no setor. Entre janeiro e março, o período apurado pela associação, a taxa básica de juros, a Selic, passou de 2% para 2,75%. Agora, já está em 9,25%. Para evitar compras desnecessárias, agora que podemos sair, uma dica é experimentar, ver ao vivo o produto que se quer comprar: roupas, cremes, perfume. Mas a dica de ouro é se perguntar para que você está comprando. É uma necessidade real ou é algum motivo emocional?

“Aprendi isso”, diz Bianca. “Agora eu até faço compras online por impulso ou quando estou entediada. Ponho tudo no carrinho do site e deixo lá. Não pago. Desligo o computador ou o celular e penso. Se eu realmente preciso, volto no dia seguinte e fecho a compra. Geralmente, fica tudo lá no carrinho mesmo. Melhor parado no site que entulhando a minha casa”.

Principalmente no início do ano, que as contas sempre aumentam, é fundamental se planejar e comprar aquilo que realmente é necessário para evitar um endividamento causado por impulso.